Sobre carros, e talvez sobre algo mais

carro

Não gosto de carro. Acho a priorização do transporte individual sobre o transporte coletivo uma das piores políticas já implementadas no Brasil. Acho a paixão nacional por carro um dos maiores símbolos de nossa indigência espiritual. Acho cafona ir de carro a qualquer lugar onde se poderia ir de forma mais rápida e confortável de ônibus, metrô ou trem (em São Paulo, esses lugares infelizmente não são muitos, mas existem).

Então você que me conhece poderia argumentar, “ah mas você não gosta de carro só porque sua mãe morreu em um”, e eu diria que minha mãe ter morrido em um acidente de trânsito me parece um motivo tão bom quanto qualquer outro para não gostar de carro.

Não gosto de carro e, hoje, caminhando rapidamente pelo trecho musical da Teodoro Sampaio, tive de frear quando me aproximei de três senhoras que, à minha frente, caminhavam bem devagar, uma ao lado da outra; fui tentar ultrapassá-las para continuar em meu ritmo rápido, quando logo recuei:

Eu tentara ultrapassá-las pelo lado direito da calçada – e, como se sabe, “ultrapassagem só pela esquerda”.

Não gosto de carro e isso de forma alguma me torna imune ou menos permeável à nossa opressiva cultura do carro. Sou uma pessoa que, caminhando, faz freagens e ultrapassagens (sempre pela esquerda, claro – sou o que a PM de Minas chamaria de ˜pessoa de bem˜). Digo isso não como quem se sente tendo feito algo idiota ao aplicar uma regra do trânsito de automóveis ao trânsito de pedestres – digo isso na condição de pertencente a uma classe média urbana para a qual uma pessoa só adquire cidadania plena no momento em que adquire um carro. Nesta condição, é inevitável ser atravessada por valores que nem sempre (quase nunca?) são os meus valores individuais. Assim como todos os que fomos criados na tradição filosófica ocidental estamos imbuídos de um sentimento segundo o qual o corpo é um invólucro material desprezível habitado por uma alma pensante (ou, vá lá – se formos materialistas e ateus, o corpo é um invólucro material desprezível sem nada que o anime e ponto), todos os que fomos criados na tradição filosófica paulistana-urbana estamos convencidos de que o carro é o meio de mobilidade urbana por excelência. O carro é o terreno filosófico comum sobre o qual transitam os paulistanos.

Ultrapassei as senhoras pela esquerda. Mais tarde, ao pegar metrô e ônibus, senti uma alegria quase infantil ao ver os números 3,00 e 1,65 registrados nas catracas. E fiquei pensando: valores, assim como tarifas, não são imutáveis, afinal. Se tudo-isso-que-está-acontecendo-agora contribuir para que meus filhos, um dia, saibam “naturalmente” e “desde sempre” que andar de ônibus é uma opção tão digna quanto andar de carro, já terá valido a pena.

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15 comentários sobre “Sobre carros, e talvez sobre algo mais

  1. Eu detesto carro. E hoje acho engraçado (e triste) que eu passei um grande período da minha jovem adultescência pensando se queria mais comprar um carro ou sair de casa. Saí de casa graças a deus (que dizia pra minha mãe que eu não podia levar namorada pra casa).

    • Nossa – entre ter um carro (i.e. possuir mais um bem de consumo) e sair da casa dos pais (i.e. virar gente grande)… Puxa, que bom que deus existe, hein, Moraleida. :-)

  2. Será que já aconteceu com você automaticamente dar uma olhadinha prá esquerda procurando o espelho retrovisor ao ultrapassar os pedestres mais lentos na calçada?!…Pois é, sou eu mesmo…

  3. esse post vc fez pra mim, né? =D
    odeio aquela hora em que tenho que me justificar pra alguém pelo fato de eu não ter carro. porque eu cumpri o 1º passo do ~sonho brasileiro~ q é o concurso público, né? então espera-se que eu o automóvel seja o objetivo seguinte. mas aí eu dou de ombros e balbucio algo como “não tô a fim” e a vida segue.
    acho que é um dos poucos aspectos nesse movimento que me deixam feliz, isso de escancarar o problema do transporte público pra geral. que é a pauta mais concreta se vc for observar, objetiva, com o bônus de que não há um discurso de reação de “se tá reclamando então pq não compra um carro?” (q eu tenha ficado sabendo), e eu vejo a galera percebendo q isso não é um problema dos pobres, que é algo que diz respeito a todo mundo etc
    belo post e belo blog novo :*****

    • Querida, acho que sou um tiquinho menos otimista que você nisso aí – acho que houve uma reaçãozinha desse tipo sim. Aqui em SP pelo menos, uma das críticas mais frequentes ao MPL lá no começo era de que eles “não precisavam” estar ali reclamando, pois tinham centavos de sobra na carteira – como se exigir transporte público de qualidade fosse prerrogativa do pobre! Pobre sim é que tem que se importar com esse negózdi ônibus – se você não é pobre, ora, “que compre um carro / coma brioches”. Mas, de resto – sem dúvida, eu também me alegro muito de ver o transporte público e suas deficiências serem discutidos da forma como vêm sendo. Porque a real é que também é hipócrita partir pra um discurso genérico “abandone seu carro” quando não há outra opção à altura. (Eu até acho que largar mão do carro é, a princípio, sempre uma ideia a se considerar. Mas o transporte público em São Paulo é tão ruim que o abandono do carro acaba sendo uma boa opção para um número muito reduzido de pessoas, infelizmente.)

      • ah, claro, eu lembro dessas críticas, mas acredito que seu alvo eram os manifestantes de então, não propriamente o objeto das manifestações. e à medida que a coisa foi se alastrando, viu-se claramente que a insatisfação com o trânsito é universal. eu enxerguei tipo um esgotamento do modelo, da cultura do carro. pq absolutamente todos do meu convívio se aproveitaram dessa redução de impostos para conquistar o tão sonhado novo/primeiro carro. daí viram que ninguém consegue mais se mover pq há muitos na rua. daí que essa crise pode ser um caminho difícil porém necessário pra gente virar primeiro mundo enfim :)

  4. Concordo tanto com tudo. Sou de uma família que não idolatra carro, meu pai há uns dois anos chegou a conclusão de que mesmo envelhecendo e morando na periferia, não precisa dirigir se não quiser. Vendeu o carro e em situações em que ele parece muito necessário (em geral elas não ultrapassam um vez por semana) ele e minha mãe pegam um táxi. Mas claro, as pessoas se chocam quando você abre mão de algo considerado status.
    Durante um tempo eu e o Daniel usamos um carro da empresa, porque ele trabalhava em montadora e a gente conseguia um leasing barato. Foi o que a gente usou pra ir pra Patagônia, inclusive. Depois, devolvemos o carro sem dó e tudo bem, mas as pessoas estranharam horrores, como se a gente estivesse escolhendo piorar de vida, e na verdade era o contrário. Aqui, numa cidade menor, com transporte escasso e caro pra caramba (segunda-feira gastei 10 libras pra ir e voltar para uma cidade que fica a 20km daqui para uma entrevista), é capaz que a gente se renda ao carro no futuro, meio a contragosto, mas admitindo que realidades diferentes podem demandar escolhas diferentes.
    No mais, endosso demais que carro é perigoso. Demais, demais. E isso é muito banalizado

    • Iara, Agenor e eu passamos os últimos seis meses sem carro – nesse período, ficou muito claro para mim o quanto o carro é visto como praticamente uma extensão da sua personalidade. Se você não tem um carro, certamente é porque algo vai muito mal na sua vida – optar por não tê-lo dificilmente é visto como uma escolha racional e legítima. Fora que, como você disse, é um troço perigosíssimo, mata mais do que bala de carabina e veneno estricnina. Eu acho impressionante como ninguém tem medo de carro.

  5. com 18 anos em vez de comprar um carro comprei um paraquedas =P. tenho 42 e não tenho habiitação. Tenho 2 filhos e sempre me virei com transporte publico, em sampa, em natal, em porto alegre, tenho que dar um jeito sempre. E o sonho é esse, ser mais fácil, não ter que dar um jeito pq é cada vez mais uma opção ideologica? sim. mas muito sacrificante ainda quando vc sai de São Paulo.

    • Pra você ver como são as coisas. Na minha família, o consenso é que, se um dia eu tiver filhos, é ÓBVIO que teremos de ter, veja bem, não um, mas DOIS carros. Não que eu não considere a possibilidade de, por que não, um dia ter dois carros. Mas é apenas uma possibilidade. Dentre tantas outras. Nem a pau que é uma certeza. Não precisa ser – você é a melhor prova de que não precisa. :-)

  6. marido e eu vendemos o carro qdo mudamos pra uma região mais central de SP (éramos vizinhos da Iara). ele trabalhava em Guarulhos e ia pra lá de carona ou transporte público. eu ia trabalhar a pé e qdo precisava de carro (o q era raro), era taxi.
    depois do acidente que o deixou tetraplégico, a gente tem usado taxi acessível e vamos comprar um carro, mas nosso plano é morar na região da Paulista, pra precisar do carro o mínimo possível! :) E eu continuo sem dirigir!

    • Barbara, você disse tudo – para precisar do carro o mínimo possível, tem que morar na região da Paulista. Beijos e boa sorte com a mudança e com o carro :***

  7. Tenho um companheiro que ama carros e motos, enfim, motores. Ama não por status, não para mostrar nada para a sociedade. Ele fica triste com a “satanização” do automóvel. Parece que o transporte público eficiente, barato, limpo (e por que não agradável?) somente será atingido quando o vilão automóvel for reconhecido como tal. Tenho lembranças doces vividas em um automóvel. Uma viagem de Brasília para Patagônia, feita no ano passado. 16 mil Km rodados em um simples astra. Ele nos levou a lugares incríveis. Já tivemos uma moto. Já andamos em uma velocidade bem agradável, com o vento fazendo aquele barulho típico e brincando com nossos cabelos. Outro dia, andei de avião. Quase sempre choro na decolagem. Acho incrível a perfeição de um avião. Mas, obviamente, torço e sonho com um transporte público de primeiro mundo no Brasil.

  8. Problema pra popularizar o uso de bicicletas no Brasil é, além da questão cultural, a topografia e o clima. Muito bonito e simples usar bicicleta como principal meio de transporte em Londres, por exemplo, onde tudo é plano e o clima é frio. Agora vai subir ladeira atrás de ladeira no Brasil pra ver como você chega no trabalho, rs.

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