Toddynhos

Quando eu era criança e aconteciam essas coisas complicadas de corrupção e inflação e impítimem eu tentava ler a Veja e não entendia nada, mas não tinha problema porque o meu pai lia, então eu perguntava pro papai (que eu chamava de popai) o que estava acontecendo e arregalava os olhos enquanto ele me explicava, por exemplo, que o governo mandava imprimir mais dinheiro que o dinheiro que tinha e é por isso que o toddynho de hoje estava o dobro do preço do toddynho de ontem.

Então eu cresci e continuei não entendendo nada dessas coisas complicadas de esquerda e políticas econômicas e movimentos sociais, mas continuou não tendo problema: o Paulo, o Alex, o Idelber e a Mary me explicavam pela internet tudo o que eu queria saber, eu arregalava os olhos e eles escreviam sobre desigualdade, estrutura, racismo e mais um monte de coisa que fazia com que eu fosse capaz de comprar o toddynho no mercado enquanto outras pessoas não, e depois com o Lula muita gente passou a poder comprar toddynho também, e eles me explicaram isso tudo.

Aí hoje a Mary me falou, “eu não entendi o q ela propôs tb”.

Ô-ou.

E agora tem um monte de pessoas me adicionando nos saites da internet na esperança de que eu as ajude a entender por que que o toddynho agora é sabor cachaça.

Eu só acho que devíamos tomar um porre de toddynho, nós todos.

Anúncios

12 comentários sobre “Toddynhos

  1. Pra você ver o tipo de pessoa que eu sou: meu pai sempre ria porque eu também pedia pra ele me explicar e saía contestando a seguir. Ele dizia: deixa você ficar mais velha, vai esbravejar menos. Agora ele diz: ficou e não adiantou ;-)

    E como a vida não cansa de ser irônica (ou somos nós que lhe imputamos o sentido, enfim), nestes últimos tempos me aconteceu de perder um amigo por ser “burguesa demais” e uma amiga por ser burguesa “de menos”. E eu nunca tinha perdido ninguém.

    Isso tudo só pra dizer que tô topando esse porre de toddynho. Sem esquecer de derramar um tiquinho no canto do balcão. Pro santo.

    • Lu, toca aqui o/

      Eu não sou nem um pouco contestadora. Se eu vejo que a pessoa é mais sabida do que eu, invisto todas as energias em entender o que ela está dizendo. Só muito depois é que me ocorre contestar alguma coisa.

      Só que agora estamos todos bem no meio daquela aula de Lacan ou de Habermas em que ninguém entende nada. Pior: não dá pra correr na biblioteca e pegar o “Lacan em 3 passos para retardados”. Pior ainda: ninguém sabe a data da prova.

  2. HAHAHHAHAHAHAHAHAHA sabe q eu to vivendo uma ~crise~ de autoridade? fico olhando pra todo mundo q eu acho q sabe muito e to, nesse momento, achando q eles n sabem nada. nao confio em ninguem. estamos ilhados. vamos cavar trincheiras :*************

  3. Rê, não vou mentir – eu acho apavorante, mas nem por isso menos maravilhoso. É super legal mesmo ver essa perda coletiva de referências – porque aí é preciso (que remédio) ir construindo novas referências, juntos. E construir algo de novo e de mais abrangente, de forma coletiva, é sempre bom.

Os comentários estão desativados.