O que me assusta, o que me apavora e o que me dá esperança

Quanto mais eu penso (e, confesso, pensar com clareza e coerência não tem sido exatamente o meu forte esses dias – em compensação, virei uma máquina devoradora de textos), mais me dou conta de que as duas únicas coisas que me preocupam neste momento não são, na verdade, nem um pouco novas. A diferença é que, agora, elas estão muito mais presentes e próximas, então ganharam uma densidade inédita – mas nada que já não estivesse no ar há muito tempo, para não dizer desde que me entendo por brasileira (sem orgulho e sem amor, por favor).

Em primeiro lugar, cabe considerar a tchurminha miguxa, que vai desde o cara de branco entoando o hino e fazendo coraçãozinho com a mão, passando pelo tio-reaça-do-pavê com demandas políticas bem diferentes das minhas (“pelo fim da bolsa-esmola!!” etc.), até chegar no careca assassino que senta a mão em gente de camiseta vermelha. Esse pessoal – em graus diferentes, obviamente – me assusta? Eu mentiria se dissesse que não, mas também mentiria se dissesse que não sabia que toda essa fauna de há muito povoa o país – uma rápida olhada pelas caixas de comentário dos grandes portais já era prova mais que suficiente de sua existência. A diferença é que eu não estava acostumada a vê-los empunhando cartazes pela rua, essa é que é a verdade. Mas dizer que eles nasceram (ou, vá lá, ˜acordaram˜) ontem, como diz a ideologia oficial, seria tão ingênuo quanto achar que os movimentos sociais só surgiram agora – a voz da tchurminha miguxa sempre se fez ouvir pelos almoços de família e caixas de comentário Brasil afora. A diferença é que agora ganharam as ruas. E, com exceção dos carecas que saem na porrada, não custa lembrar que ninguém aí está cometendo nenhum crime: o fato de eu não ter elaborado muito bem o fato de que comentaristas de portal existem e carregam cartazes diz muito mais sobre mim – i.e. sobre a minha própria imaturidade política, e quiçá emocional – do que sobre eles.

Em segundo lugar – e isso é o que realmente me assusta, muito mais do que Regina Duarte seria capaz de expressar -, estou realmente apavorada com a ação das PMs em todo o país, comandadas pelos diversos governos estaduais. Os relatos de violência gratuita são escabrosos e vêm sendo fartamente documentados. Mas, se eu for honesta comigo mesma, também devo reconhecer que essa violência não é propriamente nova – como já foi dito, é a realidade cotidiana das periferias urbanas e comunidades indígenas de todo o Brasil. A diferença é que, agora, essa violência toda chegou mais perto. Com mais descaramento. Sem nenhuma vergonha. À luz do dia. Na Avenida Paulista e em outros cartões-postais. Endossada pelo governo federal.

Se no caso do espectro coxinha-skinhead meu susto não é nada muito preocupante, no caso das PMs meu medo infelizmente é muito bem fundamentado. A violência disseminada pelas PMs não é fruto de despreparo, muito pelo contrário: as PMs estão, isso sim, muitíssimo bem preparadas para agir violentamente. O que temos visto são ações militares orquestradas para coibir manifestações – difusas ou não, isso não importa – inteiramente legítimas, e com o respaldo (nunca é demais ressaltar) do governo federal. Se isso não for motivo de pânico, não sei o que é.

Por fim, há algo que me dá esperança. Se é verdade que muita gente está “vindo para a rua” pela primeira vez agora – e permitam-me eu mesma ser um pouco coxinha e usar rua, aqui, como metáfora de “debate político” -, então essa gente muito provavelmente entrará em contato com quem há anos ocupa essa mesma rua reivindicando transporte público gratuito e de qualidade, melhores salários para professores da rede pública, cotas raciais nas universidades, direitos das mulheres e tantas coisas mais. Se há um choque e um estranhamento, portanto, ele deve ser mútuo, afetando tanto coxinhas quanto esquerdinhas; e minha aposta é de que esse choque pode ser bastante transformador, para todos os envolvidos. Para mim, pelo menos, já está sendo.

P.S. Em tempo: imagino que metade das pessoas que me conhecem deve me considerar esquerdinha, por causa das ideias que tenho e expresso; a outra metade deve me considerar coxinha, pois sou a proverbial ativista de sofá. Imagino que haja muitas outras pessoas em situação semelhante à minha, o que mostra que essa tosca polaridade esquerdinhas-coxinhas, como não poderia deixar de ser, não dá conta de uma realidade muito mais complexa.

PSTU: O melhor texto sobre o que está acontecendo é este. Concordo com o autor em que “o processo como um todo tornou-se algo tremendamente assustador, cuja direção, daqui por diante, é muito difícil de divisar. Não vejo transformações importantes acontecendo no curto prazo, até porque as vias que chegaram a se abrir, como a questão do oligopólio dos transportes, a violência policial ou o gosto por sangue dos editoriais, rapidamente se fecharam. Foram esquecidas. (…) Mas (…) o plano das disputas sociais e políticas terá sofrido, sim, um ligeiro deslocamento, nem que seja a consciência no governo federal de que alguma satisfação deve ser dada à população. Nem que seja um novo sopro de forças nos movimentos sociais, que talvez passem a sair a público com cada vez mais vigor. Nem que seja a identificação das forças que nos puxam para trás, para que ao menos tentemos neutralizá-las ou enfraquecê-las um pouco. No mínimo, o debate se dará em bases ligeiramente diferentes, o que pode parecer pouco, mas já é uma grande transformação.”

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2 comentários sobre “O que me assusta, o que me apavora e o que me dá esperança

  1. Não sou de esquerda, mas entendo que para vocês (que são) é um grande choque ver as ruas cheias de gente que NÃO É de esquerda. Torço para que desse cabo de guerra surja uma solução centrista (você dirá coxinha) que acomode razoavelmente as diferentes demandas, e que o país volte a crescer. Bom, para isso seria necessário fazer um ajuste fiscal (e demitir o Mantega) primeiro…

    • Já eu não sei nem se é de fato necessário ou desejável que, neste momento, surja alguma solução – principalmente, UMA solução. /o\

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