Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro

Conversando sobre um amigo – digamos apenas que ele é da ˜área de humanas˜ – que se encontra em apuros financeiros, meu marido perguntou:

- Mas afinal, o que ele faz?

Minha resposta foi imediata, sem censura e sem rodeios:

- Ah, você sabe como é, faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

E foi aí que me ocorreu.

Quase todos os meus amigos podem ser definidos exatamente assim: gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

Tenho pouquíssimos amigos que construíram uma sólida e tediosa carreira de sucesso em alguma respeitável multinacional.

Meus amigos, quase todos, fazem, fizeram ou farão trampos de:

design gráfico, tradução, revisão, revisão ABNT, programação, decoração, consultoria de moda, webdesign, transcrição, preparação de originais, editoração, legendagem, publicidade, jornalismo, aula de inglês, de francês, aula em faculdade, em cursinho, mestrado, doutorado, com bolsa, sem bolsa, consultoria/assessoria/gerenciamento de redes sociais, assessoria de imprensa, produção de eventos, crítica de arte, de música, de cinema, cenografia, curadoria, agitação cultural, mapa astral.

Escritores, roteiristas, resenhistas, romancistas, colunistas, cronistas e poetas. Professores, palestrantes, repórteres, artistas e fotógrafos. Produtores, atores e diagramadores. Bailarinos, músicos e psicanalistas. Pós-graduandos em ciências sociais, antropologia e história. Estudantes de graduação em filosofia. Ou, para resumir com termos que nossos tiozões reaças entendem bem: “tudo puta, bicha e maconheiro” <3

Um monte de coisas. Que não dão dinheiro. Nenhuma delas. Nem se juntar tudo.

E eu, que sempre me senti tão sem turma, tão sempre trabalhando quietinha e sozinha em casa, tão avessa ao mundo real repleto de gente com uma CLT na mão e o firme propósito de ganhar dinheiro na cabeça. Eu, que sempre me senti oprimida por aquela propaganda no metrô que mostra um jovem sorridente “decolando na carreira” depois de concluir seu MBA em administração. Eu, finalmente, sorri e me dei conta:

Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro – esse é o meu clube, essa é a minha vida.

Somos bichinhos estranhos, nós que somos gente de humanas e fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro. Pulamos de frila em frila sempre achando que o de agora vai durar e que o contratante vai pagar em dia. Ignoramos solenemente o fato de que o frila de 2009 pagava exatamente o mesmo que o frila de 2013. Acima de tudo, baseamos toda a nossa vida na convicção de que o próximo frila será melhor, mais interessante e mais bem pago que o atual.

Escrevemos, traduzimos, cantamos e sapateamos. Nosso talentos são múltiplos. Nossa versatilidade é incomparável. Nossa paciência é infinita. Nosso único defeito: não somos uma categoria unida. Se unidos fôssemos, estaríamos nos anúncios do metrô agora mesmo: “venha ser gente de humanas e fazer um monte de coisa que não dá dinheiro você também!” Mas não. Em vez disso, estamos aqui, cada qual surtando com seu próprio prazo e seu próprio cliente inadimplente – ou, no meu caso, tentando escrever mais um texto acadêmico e, em vez disso, escrevendo besteira no blog.

Tenho uma teoria de que nós, gente de humanas que fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro, só teremos nosso valor devidamente reconhecido pela sociedade o dia em que o governo quiser subsidiar a vinda de tradutores, fotógrafos, poetas e psicanalistas cubanos. Aí sim seremos importantes – aí sim seremos potência.

Até lá, continuaremos fazendo um monte de coisa – e fingindo para a nossa família e nossos amigos com carteira assinada que ganhamos algum dinheiro.

532 comentários sobre “Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro

  1. Chorei com os amigos que fazem mapa astral! rsrs

    Chorei também com a sensibilidade do post, mas aí foi de tristeza mesmo, por me reconhecer na categoria, rs²

  2. Após ler o texto e os comentários, acho que posso dar minha opinião. Faço um curso superior na área de tecnologia de informação em uma universidade pública federal. Além disso, também trabalho como programador. Meu curso tem uma formação fortíssima em ciências exatas (matemática, ciência da computação, etc.) e um lado de humanas também (administração, ciência da informação). Mesmo cursando exatas hoje, sempre tive um pé nas humanas, mas nunca tive a certeza de seguir carreira em algum curso daquela área. O que eu vejo na minha universidade é que o ensino das matérias de todas áreas que estudo é bem nivelado. E nivelado para cima. Com relação a valorização das áreas, concordo com que alguém já disse acima. Vivemos em uma sociedade capitalista e vale-se a lei do adapta-se ou morra. A força de trabalho de um engenheiro ou médico é, de um ponto de vista prático, muito mais útil do que um filósofo ou historiador e por isso é muito mais valorizada. Não estou dizendo que estes profissionais não têm valor, mas é assim que funcionam as coisas.
    Outro problema que eu vejo na galera de humanas que conheço, é que muitos não planejam sua carreira como quem faz exatas/bio. A galera entra no curso pela experiência de se fazer o curso e acaba que chega na metade do mesmo e, ou desencanta com o curso ou forma e não sabe o que fazer com o diploma.
    Achei o texto da Camila bastante sincero, porém muito infeliz em algumas partes. Entendo o preconceito que vocês de humanas devem passar, mas estudante de engenharia e medicina também têm que fazer sacrifícios, ora. Seja estudando deste adolescente, fazendo um curso técnico, disputando uma vaga para entrar em uma boa universidade, cursar a graduação na maioria das vezes trabalhando também (a maioria de meus amigos fazem engenharia a noite e trabalham como técnicos, curso que fizeram na adolescência, 30,40 horas semanais). Ou seja, há muito suor e transpiração do lado de cá também. Os louros só são colhidos no final.
    Pra finalizar, acho que, pessoalmente uma pessoa deve valorizar qualquer tipo de profissão. Portanto, qualquer um deve tentar seguir a área que quiser, mas com uma visão prática, por favor. Quer fazer uma graduação em humanas, faça. Mas seja prático. Saiba o que fazer com o diploma depois que se formar. Empreenda em sua área, tenha boas ideias; transforme arte em negócio e manuscritos em publicações, e o dinheiro virá em seguida.

  3. Caramba, vocês estão me deixando com medo. Fazia Letras, daí pensei em tudo isso que vocês falaram e mudei pra Administração. Só que não tem nada a ver comigo, odie o curso com todas as minhas forças e estou esperando 2013,2 pra voltar pra Literaturas. Os professores realmente nos fazem pensar que é possível sim ganhar dinheiro na área de humanas, tanto os da faculdade quanto os do terceiro ano. Na minha cabeça, se eu estudasse muito e me destacasse, o mercado ia me querer, porque realmente dá pra levar Letras nas coxas e passar de qualquer jeito, mas a diferença entre um aluno medíocre desses e um que leva sério é gritante. Achei que minha vantagem fosse essa, porque os alunos medíocres estão em maioria.

  4. Faço história, e não, não ligo pra ganhar muito dinheiro. Nunca liguei. Tive oportunidade pra fazer vários cursos “que dão dinheiro”, minha média no vestibular daria para diversos desses. Mas não quis. Por que? Tenho foco, sei o que eu quero. Dinheiro é o de menos, eu quero é felicidade, desde criança eu sei para o que nasci. E não nasci para curar doentes, não nasci para ficar na frente de um computador, não nasci pra fazer cálculos infinitos matemáticos. Minha VOCAÇÃO é essa, e é algo meu, que ninguém pode tirar de mim e me chamar de iludida ou vagabunda por tê-la.

    Discordo o senhor de artes, que define “futuro” como sucesso financeiro. Essa definição de futuro é muito pobre, tendo em vista somente uma visão capitalista. Tenho certeza que não só o pessoal de humanas, como certos cursos de exatas e biomédicas tem orgulho do que fazem, independente do financeiro ou não. Tenho amigos que tinham uma vida financeiramente estável e viviam bem com seus gordos salários de empresas multinacionais, mas se sentiam infelizes no trabalho e largaram tudo para fazer faculdade de humanas e mudar de profissão. Também conheço gente de humanas que largou o curso para entrar num emprego mais formal, e hoje está muito bem (por vocação, não por dinheiro). É tudo questão de escolha. E eu tenho orgulho da minha.

  5. Adorei a forma como você expôs os fatos no texto. Simples e real! Parabéns pela autenticidade.

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  7. e aí você, profissional de humanas desalmado! cobra as sessões pro paciente e escuta essa: “ah é, esqueci que nosso contato é meramente profissional mesmo!” :) me pergunto, será que ser amig@ de buteco, dá mais dinheiro?

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